sábado, 30 de abril de 2016

#14

                                                                   


   Escrevo novamente, depois de ter prometido em minha outra carta que isso era algo que não retornaria a fazer. Em parte, diria que foi a necessidade que me fez voltar a este antigo e costumário impulso. Prefiro não pensar que a situação em que me encontro agora seja a responsável por tornar-me vítima de mim mesmo, outra vez. Tudo que estava contido em mim, tudo que estava sobre mim cai por cima do que sou.
   Não consigo avaliar se é vantajoso que eu explique onde estou agora, uma vez que eu também não sei. Apenas posso afirmar que foi algo repentino e sem preparação, foi algo que precisava ser feito. Algo que ainda preciso me certificar é se você está lendo no momento certo, talvez em breve você saiba se cometeu um erro ao abrir este envelope.
   Outra coisa que prefiro não fazer é escrever junto ao conteúdo desta carta uma data. Nunca tive boas relações com o tempo, ele nunca me pareceu voraz e vejo agora que o subestimei, durante todos esses anos o subestimei. Depois de tanto tempo sem contato com palavras vejo que perdi a capacidade de chegar ao ponto que gostaria. Mas como você já sabe, este ponto não existe. Estará claro em tudo que te trouxe até aqui, em tudo que viu, mas não posso garantir que entenda.
   Começou faz não muito pouco tempo, quando eu finalmente perdi a capacidade de pensar com coerência e meus sentidos também começarem a falhar. Não consigo lembrar se você estava comigo, mas possivelmente não deu muita importância, eu também não dei. Poderia ter sido dez anos atrás como também poderia ter sido ontem, minha memória se deteriora a cada minuto.
   Gostaria de avisar que, apesar de considerar-lhe familiar, não sei a quem escrevo. É somente uma vaga lembrança que move este lápis, espero que compreenda isso.
No estado que estou agora acredito não haver outra saída. Quem me dera poder ter o tempo de contar toda a minha história, o que me fez chegar até este ponto, mas meu tempo é curto. Existe uma ponte que agora devo atravessar e posso ficar preso no meio dela, mas anseio tanto chegar ao final dela que somente saber que encontrarei paz me tranquiliza agora. Poder dar isso a si mesmo é um tanto tranquilizador.
   Espero que esta carta já não tenha sido escrita antes. Espero que você ainda exista.
  Depois de tantos erros causados por mim temo que este será o ultimo, e depois não precisarei me preocupar com infortúnios deste gênero.
  Tenho que confessar o que lhe causei, é de meu conhecimento que não há medidas para a dor que você precisou aguentar. Mas posso lhe garantir que será a última vez que lhe causarei sofrimento.
Não há assunto pertinente nesta carta, não há algo a se tratar. Apenas me convenci que precisava de companhia enquanto espero. E qual melhor companhia do que palavras direcionadas a você?
  Apenas ficarei deitado onde estou, lembre-se de trazer girassóis da próxima vez que nos encontrarmos.
  Encontrará a paz que precisa se olhar atrás da cortina, guardarei algo para você lá. Como esta carta não está endereçada para um certo alguém, não imagino quem a lerá. Me conforto em saber que registrei estas palavras.

  Assim como o sentimento mais antigo da humanidade é o medo, e o medo mais antigo é o medo do desconhecido, encontrarei meu caminho em lugares que jamais ousei andar.

Enfim termino o que comecei.

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