quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

#02

Chuva de Verão





Chuva de Verão, texto escrito por Passenger, originalmente postado no Nyah! Fanfiction.

Sinopse: One-shot que narra um ponto de vista um pouco mais dramático sobre as chuvas dessa época do ano, que tem a característica de serem rápidas, fortes e algumas vezes, devastadoras. 


"Abra para mim, deixe-me entrar
Seu amado está à luz da lua
Esta noite está tão fria
Então abra pra mim
Porque amanhã será tarde demais"
Diese Kalte Nacht

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   Saio da escola, caminhando em direção à minha casa. O fenômeno das Ilhas de Calor se mostra muito intenso e não me conformo que uma cidade extremamente fria no inverno também é proporcionalmente quente no verão. Nas ruas, o clima é estressante; afinal, por que pegar um ônibus lotado, cheio de gente para voltar para casa quando cada um pode ir no seu carro com ar condicionado? Trânsito complicado e a montoeira de carros aumentando a poluição.
   Mas, mesmo assim, ando com a cabeça erguida. Não sorrio o tempo todo, pois assim iria parecer maluca. O suor escorre em minha testa, porém a animação de estar a apenas uma quadra de casa é maior que o cansaço.
   Quando finalmente atravesso o portão, me jogo na porta do prédio e enfio a chave com dificuldade. Cumprimento a todos em casa e vou depressa para o quarto arrancar a roupa e os sapatos para colocar algo mais fresco. Às vezes me passa pela cabeça a ideia de todo mundo poder sair pelado na rua.
   
   18h56. Não passou meia hora desde que cheguei em casa, mas apesar do horário, vejo na janela que já é de noite. Não, algo está errado, não é noite, são nuvens. Nuvens negras cobriam toda a extensão do céu que eu conseguia enxergar da janela do meu quarto. Logo depois, caem os primeiros pingos grossos de água no chão. Ouço o barulho do trovão e começo a tomar minha providência para o que vem a seguir: tiro alguns casacos do guarda-roupa, coloco um acolchoado ali dentro e pego um livro. Assim que escuto o som de muitos pingos na janela, entro no guarda-roupa e ali permaneço por uns quinze minutos; minha curiosidade me faz levantar dali e ir até a janela ver como está.
   Tenho então uma surpresa. Vejo o vento levando galhos e muita sujeira para os lados. A rua, ainda com carros parados no sinaleiro, alagada. Na marquise do outro lado, pessoas paradas, falando no celular. Agora que voltei minha atenção para isso, percebo os raios e os trovões. Ouço um de casa dizer "você tem sorte por ter voltado bem antes da chuva".
   Sorte? O que está acontecendo do lado de fora não é nem metade do que deve estar acontecendo na cidade e eu tenho sorte por estar vendo isso diante dos meus olhos? Na TV ligada da sala, escuto notícias sobre destelhamentos, árvores caindo, caos no trânsito, etc. Deito-me na cama, olho para a chuva e começo a pensar se realmente tenho essa sorte toda. Eu cheguei, vi o que estava acontecendo e virei as costas, nem sequer agradeci à Deus por conseguir chegar com segurança em casa. Mas o que mais eu poderia fazer? Todos esses pensamentos vãos me deram sono e eu acabei cochilando.
   
   Quando acordei, uma hora e meia mais tarde, fui na geladeira procurar algo para comer, e quando olhei rapidamente pela janela da cozinha, tive que voltar e olhar de novo. Na porta do prédio, tinha algo que me chamou a atenção. Desci com a chave e uma toalha velha. Abri a porta, enrolei-o com a toalha e levei-o nos braços até lá em cima. Perguntei para os familiares:
   
   – Podemos cuidar deste cachorrinho que estava lá fora?

   
   Mesmo sem autorização total, dei comida, água e um banho. Arrumei um local temporário pra ele ficar. Quando jantávamos na sala, olhamos para a janela e vimos que a chuva não parou, embora agora não esteja tão intensa. Depois de algumas discussões sobre o cachorro, tivemos pena de cuidar dele para depois colocá-lo na rua de novo, então todos aceitaram ficar com ele. Demos um nome para ele, Teddy.
   Fiz todos os meus afazeres e quando notei, já passava das dez da noite. Quando estou pegando no sono, quase dormindo, me assusto com um trovão alto de estremecer as paredes que sussurra no meu ouvido "boa noite". Agarro uma almofada e depois de me acalmar, consigo dormir.
   A manhã cinza me saúda, junto com um vento gelado. Enquanto caminho em direção à escola, vejo a paisagem meio triste que a chuva deixou de lembrança, mas dou um sorriso ao lembrar de quando abri a porta.
   Uma tempestade de meia hora poderia ser muito menos devastadora se cada um abrisse a porta para quem precisa entrar, pois prevenir um acidente é muito mais fácil que remediá-lo depois; como poderia eu, com condições até de ajudar alguém, reclamar da chuva de verão? E a minha suposta sorte? Eu diria que são bênçãos. Quando eu começar a agradecer pelo que tenho, poderei enxergar a chuva de verão como uma garoa de outono? Talvez as pessoas possam perceber isso se abrirem suas portas também.

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Notas: estória fictícia criada por mim, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

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