quarta-feira, 3 de agosto de 2016

#15





VOU NAVEGAR E CAIR NA BEIRA DO MUNDO


  Um breve relato de uma longa vida.

  Ele havia decidido mudar o rumo de sua vida quando tinha apenas 10 anos de idade. Vira seu pai sumir na imensidão do mar e ansiava encontrá-lo e contar como passara todo esse tempo longe dele. Tudo que tivera de aprender sozinho e o mundo ao lado de sua casa que havia explorado. Seu pai escutaria tudo e se orgulharia dele.
  
E assim fez.

  Completou vinte anos e decidiu começar a construir seu pequeno barco. Tinha em mente apenas um pedaço grande de madeira com uma vela de pano. Conforme ia construindo, vários de seus amigos o visitavam e levavam como presente algo para seu barco. Todavia ele não os usava, os vendia. E com o que era vendido comprava presentes para dar em troca. E assim foi até o dia em que o questionaram. Respondera apenas que só precisava de alguém lembrando de que estava construindo um barco.
  
E assim terminou.

  Seu barco estava pronto. E ficou do jeito que deveria ficar.
  Na manhã seguinte pegou suas coisas e foi na mesma direção de seu pai. Enquanto caminhava ao redor de seu barco, passou a lembrar de tudo que ele e seu pai viveram. Dos dias em que ficou até tarde ouvindo histórias sobre o mar, como acordavam antes do sol para irem pescar ou até da vez em que a maré estava tão alta que quase tiveram de se mudar.
  Olhou para cima, aquela seria a última que olharia para o céu que existia em cima de sua casa. O sol estava escondido entre nuvens que não eram ameaçadoras.

  Juntou as cordas que sobraram, algumas ferramentas e o resto do pano que não virou vela. Caminhou com tudo que carregava e entrou em sua casa, olhou para o teto e respirou fundo. Guardou tudo embaixo de sua cama e saiu de casa, pensou por um momento que gostaria de enterrar sua casa com a areia que pisou durante todos esses anos, caminhou até a beira do mar. Era o mar que amava, era o mar que precisava. Deu adeus ao pássaro colorido que morava perto dele.
  Sentou ali mesmo e começou a conversar com o vento. Como estaria muito tempo sozinho teria de se conversar com o que não falava. Ouvia histórias de cidades no meio do oceano, de baleias maiores que ilhas e aves que ao voar deixavam o dia como noite, ansiava por ver tudo isso.
  
  Empurrou seu barco para o mar e subiu nele. Mal acreditava que estava prestes a começar a busca por seu pai e mesmo assim sua mente estava limpa e vazia de pensamentos. Só podia estar agradecido pela vida ser tão simples, achava que todas eram simples. Todas as pessoas que conheceu, todas elas complicavam a vida e ele desejou que elas pudessem um dia construir seus próprios barcos.
  Depois de um tempo ele foi capaz de ouvir o que o mar estava falando para ele, aprendeu coisas e ensinou coisas. Aprendeu sobre os cavalos que nadam e ensinou sobre as tartarugas que não sabiam nadar. E assim se passaram vários meses. Virou amigo das estrelas e as dava nomes, mas elas não podiam responder, estavam muito longe.

  Já estava mais longe do que se pode imaginar de casa quando viu uma cabana boiando perto dali.     Tinha acabado de acordar e ainda não tinha certeza se o que vira era ainda parte do seu sonho. Amarrou seu barco em um dos pedaços de madeira que sustentavam a cabana. Chamou por alguém, esse alguém não respondeu. Devem estar dormindo, ele pensou, ainda está muito cedo. Estava decidido a ir embora. Sentiu algumas gotas de chuva em seus ombros, viu que a tenda tinha alguns buracos. Não podia deixar que, quem quer que esteja lá dentro, se molhe. Levantou o pano que cobria a entrada e entrou na cabana. Não havia ninguém lá, então não havia motivos para conserta-la. 

  Observou algumas fotos que estavam penduradas, havia uma foto de uma ave colorida, uma foto de um barco a vela, uma foto de uma palmeira e a última estava molhada. Voltou para seu barco depois de deixar uma mensagem na cabana.

“Passaremos a eternidade caminhando sobre o mar. O vento começa a soprar do lado oposto e as ondas já não existem mais. Acho que estamos chegando na beira do mundo. Leve suas fotos com você e eu levarei as lembranças que me trouxeram para cá. ”
  
  E assim foi.



sábado, 30 de abril de 2016

#14

                                                                   


   Escrevo novamente, depois de ter prometido em minha outra carta que isso era algo que não retornaria a fazer. Em parte, diria que foi a necessidade que me fez voltar a este antigo e costumário impulso. Prefiro não pensar que a situação em que me encontro agora seja a responsável por tornar-me vítima de mim mesmo, outra vez. Tudo que estava contido em mim, tudo que estava sobre mim cai por cima do que sou.
   Não consigo avaliar se é vantajoso que eu explique onde estou agora, uma vez que eu também não sei. Apenas posso afirmar que foi algo repentino e sem preparação, foi algo que precisava ser feito. Algo que ainda preciso me certificar é se você está lendo no momento certo, talvez em breve você saiba se cometeu um erro ao abrir este envelope.
   Outra coisa que prefiro não fazer é escrever junto ao conteúdo desta carta uma data. Nunca tive boas relações com o tempo, ele nunca me pareceu voraz e vejo agora que o subestimei, durante todos esses anos o subestimei. Depois de tanto tempo sem contato com palavras vejo que perdi a capacidade de chegar ao ponto que gostaria. Mas como você já sabe, este ponto não existe. Estará claro em tudo que te trouxe até aqui, em tudo que viu, mas não posso garantir que entenda.
   Começou faz não muito pouco tempo, quando eu finalmente perdi a capacidade de pensar com coerência e meus sentidos também começarem a falhar. Não consigo lembrar se você estava comigo, mas possivelmente não deu muita importância, eu também não dei. Poderia ter sido dez anos atrás como também poderia ter sido ontem, minha memória se deteriora a cada minuto.
   Gostaria de avisar que, apesar de considerar-lhe familiar, não sei a quem escrevo. É somente uma vaga lembrança que move este lápis, espero que compreenda isso.
No estado que estou agora acredito não haver outra saída. Quem me dera poder ter o tempo de contar toda a minha história, o que me fez chegar até este ponto, mas meu tempo é curto. Existe uma ponte que agora devo atravessar e posso ficar preso no meio dela, mas anseio tanto chegar ao final dela que somente saber que encontrarei paz me tranquiliza agora. Poder dar isso a si mesmo é um tanto tranquilizador.
   Espero que esta carta já não tenha sido escrita antes. Espero que você ainda exista.
  Depois de tantos erros causados por mim temo que este será o ultimo, e depois não precisarei me preocupar com infortúnios deste gênero.
  Tenho que confessar o que lhe causei, é de meu conhecimento que não há medidas para a dor que você precisou aguentar. Mas posso lhe garantir que será a última vez que lhe causarei sofrimento.
Não há assunto pertinente nesta carta, não há algo a se tratar. Apenas me convenci que precisava de companhia enquanto espero. E qual melhor companhia do que palavras direcionadas a você?
  Apenas ficarei deitado onde estou, lembre-se de trazer girassóis da próxima vez que nos encontrarmos.
  Encontrará a paz que precisa se olhar atrás da cortina, guardarei algo para você lá. Como esta carta não está endereçada para um certo alguém, não imagino quem a lerá. Me conforto em saber que registrei estas palavras.

  Assim como o sentimento mais antigo da humanidade é o medo, e o medo mais antigo é o medo do desconhecido, encontrarei meu caminho em lugares que jamais ousei andar.

Enfim termino o que comecei.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

#13


  



  à beira do abismo



à beira do abismo
somos ar
somos a mais pequena molécula do nada

à beira do precipício
somos pedra
ignóbeis pedaços de algo, fazendo nada.

à beira do desfiladeiro somos sonho
somos coragem
somos medo
somos vergonha.
somos nós mesmos
fugindo do coração.

criando mais dor
para curar o tormento.


                                                                                                             Celso S. Júnior

sexta-feira, 15 de abril de 2016

#12




Nunca gostei de me imaginar como uma protagonista de um anime ou algo do tipo, sempre pensei que minha vida é parada como a de uma figurante qualquer. Não achava que mereço ter um roteiro intrigante, reviravoltas ou um romance e tanto como acontece em ficção, onde tudo é perfeito.
Mas no fundo eu queria ser perfeita. Ou no mínimo ter uma vida perfeita. Uma vida que não me fizesse chorar após sorrir, feita de superficialidades que me distrairiam e impediriam as lágrimas de caírem. Eu só queria ser como eles, com suas vidas sociais agitadas, suas notas sempre facilitadas, seus grupos de amigos, seus interesses... 
Se eu fosse assim, não seria eu, seria qualquer um. Tenho medo de até que ponto eu levo isso à sério. Isso que aliás, é uma desistência dos desafios que eu mesma decidi seguir, e eu já sabia que isso iria acontecer. Já sabia que iria chorar até os olhos doerem. Só não sabia, e não sei ainda, até onde eu aguento.
Minha motivação de me reerguer e tentar novamente parece estar se esvaindo a cada dia ao mesmo tempo que a vontade de viver aumenta muito nos poucos momentos felizes, o que não necessariamente significa uma neutralização destes fatores. É como se nada estivesse ponderado, como se ninguém pudesse medir as consequências, nem eu,
Cada palavra é escrita com hesitação, porque é um puta egoísmo pensar desse jeito, que o mundo gira ao redor do meu umbigo e que todo mundo me faz de trouxa, contudo não consegui evitar escrever o quanto eu estou confusa de tudo.
Devido aos outros que sempre vão embora? Devido à felicidade que eles têm que de vez em quando me entristece? Não, devido à minha própria estupidez que não descansa até que eu durma e não mantenha contato social.
A única coisa que me faz levantar da cama todos os dias e ir sobreviver é Deus, e eu espero que esta minha confiança nele dure por tempo o suficiente até eu ter certeza do que quero e souber como executar estas escolhas.
Eu não me encaixo, eu não sou o suficiente, eu não estou me esforçando, eu nem sequer mereço. Mas eu continuo aqui.

domingo, 10 de abril de 2016

#11

  






 Não preciso pensar, formular ou imaginar nada agora. Chego ao ponto que é irreconhecível quem me chamei há eras atras. Assim que tais visões insistiram em adentrar, partes do que houvera antes se dissipou. 
 Irei eu conseguir apagar o futuro também? Se tivesse perguntado neste exato momento, teria sido mais sábio ter acabado no presente. 
 Avistado por entre espaços, o que possui forma já foi uniforme. 
 Observei aquele que gradualmente come e consome e destrói.  Espalhar a sabedoria, do que adiantaria?  Ao observar a perdição avisto espelhos, não direi que tais estão perdidos, a falta de rumo me trouxe aqui. 
 Aquele momento declarei ser apto de ao menos preservar o resto de consciência que resguardo com tanto furor. O tempo que ainda tenho não é relativo, posso tocá-lo. 
 O incansável e interminável impulso de visitar o abismo. O que esperaria o final dele? Jamais visto e tocado. Teria liberdade em repouso ou uma prisão que sobe ao chão?
 Se pudesse andar iria conhecer o que me aguarda. 
Tomaria por perdida esta luta, esta guerra. Por comparar a vida a guerra, esqueci-me de que meus escudos permanecem do lado de fora.

terça-feira, 5 de abril de 2016

#10




Cena aleatória de um projeto que nem começou


    Ele acorda com a luz proveniente da janela ofuscando seus olhos, fecha os olhos e cochila por mais cinco minutos. Acorda de novo, a mesma luz iluminando o quarto; vira-se para a esquerda e não a vê ali do outro lado da cama. Espreguiça-se um pouco, afasta os cobertores preguiçosamente e coloca os pés no chão, tentando equilibrar-se. Usa o banheiro e retorna ao quarto, passando pelo corredor e indo procurar algo que lhe sirva de café da manhã. Chega na cozinha, ergue a cabeça e a vê encostada na pia, vestindo a camiseta que ele emprestou para ela usar durante a noite, que ficava grande e a deixava tão linda como se ela estivesse arrumada para uma festa; ela estava fazendo chá. Ele se aproxima dela. abraça-a por trás, beija seu ombro e deseja um bom dia. Ela se vira, abraça ele e diz que o café está pronto. Eles pegam os pratos, levam até a mesa, sentam frente a frente e comem, conversando sobre como foi a noite e como o tempo passa rápido quando estão juntos. "Eu espero que isso seja para sempre", diz ela. "Depende só de nós", respondeu ele. 
    Eles voltam para o quarto. Ele se senta numa cadeira, pega um cigarro do maço sobre a mesa e acende com um isqueiro que estava na gaveta. Ela caminha descalça pelo quarto, procurando uma HQ que goste para que, como em todas as manhãs que passavam juntos, jogarem um pouco de conversa fora. Ela acha um envelope, abre-o, pega o papel que ele contém, não lê. Ele faz uma expressão de surpresa, o coração acelera. "Eu espero que não tenha que esconder isso para sempre", pensa ele. Ela sorri, achando que o conteúdo do envelope era para ela; abre o papel cuidadosamente e quase imediatamente uma lágrima cai do seu olho esquerdo. Ele tenta explicar. Ela não quer ouvir. Ele pede desculpas. Ela tira a camisa que é dele e veste as próprias roupas. Ele pede para que ela não vá embora. Ela vai embora. Ele chora. "Dependia só de nós", ela disse. E ela não voltou mais.

















sábado, 2 de abril de 2016

#08




    Você é o o reflexo perfeito do efeito colateral que causa em mim. Você é a curva repentina que eu resolvi seguir quando estava num caminho reto. Você é um desafio, uma excentricidade tão excêntrica quanto a minha própria. O timbre da sua voz me deixa estática. Quando te abraço, sinto que seguro um mundo prestes a desmoronar. Eu vou te abraçar tão forte que seus pedaços ficarão presos, unidos enquanto eu estiver junto. Eu te quero.